"EU ACUSO" por Yves Hublet
O grande escritor Émile Zola, autor de consagradas obras universais, sensibiliza-se com a enorme injustiça que se perpetrara contra aquele oficial, vítima flagrante do anti-semitismo que grassava à época nas Forças Armadas Francesas.
Gozando de enorme prestígio em sua pátria, Zola articula-se em sua defesa e escreve uma Lettre à la France (Carta à França) endereçada ao Presidente da República daquele país. Tinha como título: J´Accuse! (Eu acuso!).
A conseqüência prática do seu ato foi a mobilização da opinião pública que exigiu do exército, reconsiderar o caso. Novo julgamento realizou-se, desta vez dando crédito ao acusado – Alfred Dreyfus – que foi inocentado e reintegrado.
J´accuse! (Eu acuso!) passou a ser um símbolo da busca pela Justiça e pela Verdade, através da melhor literatura.
Longe de querer igualar (ou sequer reproduzir) a força e a beleza daquela peça literária, ousarei aqui apenas emprestar – por instantes – o modelo de libelo contra a Vergonha e a Corrupção que avassalam o meu país – Brasil. Assim...
Eu acuso!...
Os partidos políticos de oposição, notadamente, o PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira e o PFL – Partido da Frente Liberal, de OMISSOS na busca da Justiça, postergando um pedido de impeachment do atual presidente da República – Luis Inácio "Lula" da Silva quando, por muito menos acusações, há alguns anos, defenestrou -se outro presidente: Fernando Collor.
Disseram, os líderes dos partidos, que preferiam tirar "Lula" através do voto, na eleição para presidente, em 2006. Ou tratou-se de um enorme e estúpido erro de avaliação (o que não acredito, visto tratarem-se de "velhas raposas" da política) ou de mais um caso vergonhoso de conivência e conveniência com o estado de podridão institucional perpetrado pelo Partido dos Trabalhadores – PT.
Após ler os argumentos que estes líderes vêm apresentando à Nação, para justificar o "sangramento" de "Lula", às vésperas da eleição (que eles acreditam poder ganhar e as pesquisas estão mostrando que NÃO), concluo tratar-se mesmo do velho argumento "toma lá, dá cá" ou, esclarecendo melhor, resolveram poupá-lo neste instante, por terem "o rabo preso" – usando um linguajar popularesco.
Pratica-se assim, mais um desserviço à Pátria pois, senhores políticos, a profilaxia é, não apenas desejável, mas imperiosa, quando um mal maior é detectado num organismo sadio.
No caso em pauta, considero o governo "Lula" como um câncer a corromper e infectar todo o corpo saudável da Nação brasileira.
Acredito mesmo ter o Destino (ou seja lá que força maior agiu neste sentido) escolhido este estranho apelido já incorporado ao nome de batismo, prevendo o catastrófico governo que seria gerado, pois a lula é, no reino animal, um molusco invertebrado cefalópode (do grego: com os pés na cabeça) e que tem dez tentáculos, com ventosas.
Tentáculos esses que se introduziram, pouco a pouco nos tecidos e na carne do País para sugar seu sangue e minar suas energias, tornando-o submisso e dependente. Ou seja, pronto para ser consumido.
Este é o perfil em que se encontra hoje o Estado brasileiro: lasso, inerte, indefeso à sanha inescrupulosa da quadrilha em que se transformou (já há vários anos) o Partido dos Trabalhadores – PT.
Eu Acuso!...
A OAB – Ordem dos Advogados do Brasil – entidade que congrega a elite jurídica da Nação, de OMISSÃO. Abrigando em seus quadros vários ex-Ministros da Justiça e de Tribunais Superiores, a OAB tinha a obrigação de acompanhar as averiguações das graves denúncias feitas – desde o início do ano passado – por membros atuantes do legislativo bem como o desenvolvimento das várias CPIs.
E, o que ainda é mais grave: não ter dado, em meados do ano passado, ocasião propícia para a derrubada do líder maior do PT, o devido acolhimento e prosseguimento ao pedido de impeachment, feito pela Conselheira Dra. Elenice Carille tendo, tão somente, criado uma comissão para "estudar" a pertinência do pedido e a conveniência do ato. Os "estudos" se estenderam até os dias de hoje (também, entende-se: vieram as festas de Natal, Ano Novo, Carnaval, que ninguém é de ferro!).
Quem sabe (logo depois dos feriados da Semana Santa) a OAB se reúna e entre com o pedido de impeachment do "Lula"?
Completamente inadequado à ocasião, pois será apresentado ao povão como uma postura oportunista e eleitoreira das elites, visando a derrubada do "Grande Líder".
Eu Acuso!...
A CNBB – Comissão Nacional dos Bispos do Brasil, entidade que reúne bispos da Igreja Católica Apostólica Romana, de OMISSÃO.
Estes bispos, quase sempre tão atentos e rígidos no estabelecer e aplicar regras e ordenamentos severos na observância de leis terrenas, canônicas e – a seu critério – até das divinas, deixaram escapar a ocasião de punir – ou, pelo menos criticar – seus fiéis, quando, não só desobedeceram como até tripudiaram sobre elas, ao embrenharem pelas vias tortuosas e abjetas da corrupção.
Isso, sistematicamente, acontecendo já há vários anos, dentro do Partido dos Trabalhadores – PT, que a CNBB, não só ajudou a crescer (talvez na tentativa de recriação tropical do SOLIDARIEDADE polonês, menina-dos-olhos do então papa João Paulo II), como estimulou os fiéis a votarem nele.
Nos dias atuais (vésperas de eleições e até – possível e desgraçadamente – de reeleições de nefastos líderes) a CNBB, timidamente, como é do seu feitio, critica a política ECONÔMICA deste governo corrupto, como se ali estivesse o fulcro dos malefícios que nos avassala, humilha e apequena.
Alguns ex-amigos do atual presidente – o frei Beto, por exemplo – até escreveram livros após o desencanto com os escândalos do Mensalão, etc., etc. e se desvencilharam dos seus cargos dentro do governo.
No seu livro A Mosca Azul, o frei dominicano reflete e partilha suas observações de ex-assessor especial do presidente da República e coordenador da mobilização social do programa Fome Zero. Tenta entender, à luz de vários filósofos antigos e modernos, ao mesmo tempo em que procura explicar ao leitor, as condições e fatores que operam mudanças substanciais nos corações e mentes de governantes - cultural, humanística e espiritualmente - mal preparados para exercerem o poder.
E completa, nas páginas do seu livro: "Um corrupto é o resultado de pequenas infidelidades. Ele não se faz senão através de detalhes que se lhe acumulam na alma: levar vantagem num negócio, apropriar-se de um bem aparentemente insignificante, trair a confiança alheia. Não é o dinheiro que destrói a sua moral. É a ganância, a arrogância, a convicção de que é mais esperto que os demais."
Eu Acuso!...
A ABI – Associação Brasileira de Imprensa, que nos seus áureos tempos de atuação, sob a direção hercúlea do insigne jornalista e político Barbosa Lima Sobrinho, combateu os desmandos da ditadura, também de OMISSÃO.
Em nenhum momento a ABI, como entidade, se manifestou contrária aos desmandos e falcatruas que os dirigentes petistas, sob o comando do seu "Líder Maior", envolveram a nação brasileira.
Enquanto se mantinha alheia e acima deste verdadeiro lodaçal infecto e nauseabundo, muitos jornalistas se incorporavam – de corpo, alma e inspiração -, às hostes governistas, ora endeusando seus dirigentes, ora denegrindo a honra de seus detratores.
Assim, estes jornalistas tendo em suas sujas mãos (não de tinta, obviamente) o poder que lhes confere a mídia escrita e televisiva, não só procuraram minimizar as mais palpáveis acusações de crimes (alguns, até atentatórios à soberania nacional) como, num claro conluio para acobertar atividades nefastas de ministros, até ajudaram a disseminar acusações e suspeitas a personagens de origem tão humilde quanto a do atual "Líder Maior".
Alguns o fizeram, convictos da justeza de seus ideais sócio-políticos, defendidos nos tempos de chumbo da ditadura. A estes, aguarda a comiseração e o entendimento da posteridade. Mas, à grande maioria, que vendeu seu saber e técnica ao governo para manter seu status quo, sem sequer atentar para a profundidade do poço em que se debruçava a Nação brasileira, a estes aguarda o opróbrio, a infâmia e a repulsa dos seus pósteros.
A bem da verdade, necessário se faz enaltecer a parte sadia da Imprensa brasileira, defendida por jornalistas que, à imagem de Dom Quixote, investiram com suas lanças/penas contra os moinhos da prepotência governamental.
Alguns, por suas posturas heróicas, foram afastados de suas posições de liderança apenas por exercitarem o livre arbítrio, tão importante no exercício da profissão de jornalista. As empresas que os despediram, mesmo com a desculpa de que teriam sofrido represálias econômicas da parte do governo (exatamente como se comportava a ditadura) estão condenadas ao limbo que acolhe os covardes e coniventes.
Às vítimas destas perseguições, lhes aguardará o reconhecimento das gerações futuras e – o que é ainda muito mais importante – restará intocada a HONRA e a DIGNIDADE.
Eu Acuso!...
A ABL – Academia Brasileira de Letras, por sua ALIENAÇÃO e OMISSÃO frente aos acontecimentos que cobrem de vergonha a Nação brasileira.
Abrigados sob a égide da Casa de Machado de Assis, o que seria (e para alguns, até é) a nata da intelectualidade no âmbito do beletrismo, os acadêmicos acomodaram-se, confortavelmente instalados nas poltronas macias dos vetustos salões e aquecidos pelas chávenas, servidas – britanicamente – às 17 horas.
Saciados em seus apetites gastronômicos e em suas vaidades, desfilam pelos corredores envergando seus verdes fardões engalanados de comendas, e esquecem que, aqui fora, estão seus compatriotas. Famélicos, alguns; rotos e esfarrapados outros; indignados e atônitos, uma grande e expressiva parte da sociedade brasileira.
Talvez por terem em seus quadros ex-presidentes da República e atuais senadores em exercício, travestidos de poetas e escritores, se preservem de desagradáveis ilações sobre uma política sórdida e um governo pérfido, podre e incompetente.
Eu Acuso!...
A SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, de ALIENAÇÃO e OMISSÃO a respeito dos gravíssimos acontecimentos, alguns perpetrados pelo governo do PT e que enxovalham e amesquinham o Congresso; achincalham e dilaceram as instituições; aviltam e destroem a Ética, como já haviam feito com as Esperanças e a Dignidade da nação brasileira.
Onde estão os cientista políticos? Onde estão os sociólogos? Onde estão os filósofos?
A única voz que ainda se ouve é a da filósofa – Marilene Chauí – uma das ideólogas marxistas do Partido dos Trabalhadores – PT. E o que diz esta senhora?
Em entrevista ao jornal Brasil de Fato (edição nº 143/2005) publicação do PT-SC (que vale a pena ler na íntegra, para que não se diga que a idéia foi deturpada do seu contexto) ela diz, em resposta à pergunta: – Se este governo (do PT – o destaque é meu) não é de esquerda e ainda por cima, agrada às elites, por que vêm com essa ofensiva para cima dele (LULA – o destaque é meu)? Resposta: - "Ah, mas não são as elites. É o PSDB e o PFL. É uma questão eleitoral." Pergunta: –"Mas eles são as elites". Resposta: - "Não dêem grandeza política, nem histórica a esta crise. Esta crise é a antecipação da disputa eleitoral. PONTO. PARÁFRAFO".
Em outro informativo, este do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, de 29/12/2005 retiramos um texto publicado na revista Caros Amigos (11/2005), onde a filosofa analisa: -" Houve a invenção midiática da crise sob a regência dos partidos de oposição na tentativa de um golpe branco. Trata-se de uma luta de classes, ao vivo e em cores (...) Existem problemas graves...Existe a questão da corrupção, existe a questão das reformas que não foram feitas, existem os problemas de política econômica (...) Não se trata de recusar nenhum deles, mas a crise...ela foi criada num momento que alguns julgaram interessante inventá-la. Um produto midiático que avassalou a sociedade inteira."
Ah, bom! Que susto! Então está tudo bem, se a senhora assim diz...
Invenção midiática...um produto midiático
É assim que a filósofa Marilene Chauí interpreta a catadupa de corrupção, ignomínia e canalhice que nos agride e envergonha:..."um produto midiático..." ou seja: "inventado" pela mídia – a das elites, é claro!
A tudo isso, os cientistas das áreas de Humanas assistiram, quase impassíveis, impenetráveis em suas couraças acadêmicas. E outros, das áreas de Exatas, até aplaudiram e exaltaram a plantação "espacial" de feijão, como o grande feito científico deste início de século.
Salvo honrosas exceções!
Eu acuso!...
A UNE – União Nacional de Estudantes de CÚMPLICES desta verdadeira subversão de valores que se pratica contra o Estado brasileiro.
Esta entidade, representando a classe que – outrora – lutou contra a ditadura, pela volta da Democracia e da restauração da Liberdade, hoje se prostituiu e se aninha sob os tentáculos morais do governo federal, recebendo benesses jamais sonhadas, vendeu-se em troca de um "prato de lentilhas", na expressão bíblica.
De uma agremiação atuante no campo das liberdades individuais e coletivas, tornou-se participante e conivente com um governo venal e, até mesmo – terrorista -, posto que usuário das mesmas práticas e arbitrariedades que se usou nos cinzas tempos da ditadura militar.
E, finalmente...
Eu acuso....
O Povo Brasileiro de ASSISTIR, passivo, inerte, estático, apático e até, resignado, o desenrolar do cipoal de acusações fundamentadas de corrupção e várias outras modalidades de crime que a Imprensa – livre de peias –, o Ministério Público e até alguns parlamentares dignos vêm fazendo contra o governo federal, representado pelo presidente da República, senhor Luis Inácio "LULA" da Silva, do Partido dos Trabalhadores – PT.
Acusações de tal modo graves, que levaram o digníssimo Procurador Geral da República, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, a declarar que "uma verdadeira quadrilha" se abrigou sob o guarda-chuva protetor do governo petista.
Várias – e algumas até defensáveis – são as desculpas para justificar esse estado de inércia que acometeu a sociedade brasileira, frente ao oceano de matéria putrefata produzida por esse governo infame.
Verdadeiras ou não, o certo é que poucas foram as atitudes civilistas de que se pode orgulhar naquele ano de 2005, que marcará a História pátria: o protesto – quase solitário – da "vovó radical", a senhora Maria de Lourdes Negreiros (76 anos), aos brados de FORA LULA numa manifestação contra a presença do presidente em Fortaleza; do Tenente-Brigadeiro Ivan Frota, presidente do Clube de Aeronáutica do Rio de Janeiro, que cancelou um convite já feito ao vice-presidente e Ministro da Defesa José Alencar, por ter este, apoiado o deputado José Dirceu, recém cassado por atos atentatórios à dignidade dos cidadãos honrados; da alagoana de 80 anos, cujo nome é desconhecido por ela estar sob proteção da Justiça, ex-empregada doméstica aposentada que filmou, na Ladeira dos Tabajaras, Rio, a suas próprias custase riscos, cenas de parceria PM/traficantes, que resultaram na prisão de vários facínoras, inclusive PMs; do deputado-federal Fernando Gabeira, do Partido Verde (PV-RJ) que, da tribuna da Câmara afrontou, com palavras duras, o nefasto e corrupto presidente da Casa Legislativa, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), que acabou renunciando.
Claro está, que a responsabilidade cívica dos cidadãos deve ser considerada a partir da premissa de que, aos mais instruídos e informados caberá um grau maior.
Espero e confio que nos meses dramáticos que se avizinham, onde certamente se delinearão os horizontes de um novo porvir, os envolvidos neste libelo acusatório possam refletir, superar as inibições e se posicionar, contribuindo com o fortalecimento das instituições e com o restabelecimento da Ética e Decoro, em defesa da Honra, da Dignidade e da Democracia.
Pois, como nos ensinou o impoluto patriota Rui Barbosa: - "A Pátria não é ninguém; são todos..."
Yves Hublet é escritor e teatrólogo
Brasília, abril/2006



